23/09/2005 - 20h09m
Como a internet matou a telefonia tradicional
Globo Online
RIO - O avanço de programas como o Skype e de sistemas de transmissão de voz pela internet estão amplificando os debates sobre o futuro do setor de tecnologia e, em especial, das empresas de telefonia. Para se ter uma idéia da dimensão do desafio enfrentado pelas telefônicas, a revista britânica "The Economist" - considerada a mais conceituada publicação sobre economia e finanças em todo o mundo - publicou reportagem de capa com o impactante título "Como a internet matou a telefonia tradicional".
A reportagem lembra que, muitas vezes, uma nova tecnologia promove rupturas, tornando "a vida muito difícil para empresas que dependem da maneira já existente de se fazer as coisas".
"The Economist" lembra que "vinte anos atrás, o computador pessoal foi um exemplo clássico. Ele varreu do mapa um estilo mais antigo de computação baseado em grandes equipamentos, e acabou colocando a IBM, uma das empresas mais poderosas da época, de joelhos".
A reportagem afirma que uma nova "tecnologia de ruptura" está na praça: a voz sobre protocolo de internet, ou voz sobre IP, da sigla em inglês, "que promete uma ruptura ainda maior, e benefícios ainda maiores para os consumidores do que os computadores pessoais". E cita o Skype, uma pequena empresa cujo software permite às pessoas realizar ligações telefônicas grátis para outros usuários Skype, por meio da internet, e ligações muito baratas para telefones tradicionais, "nos dois casos sendo um prenúncio de problemas para as operadoras telefônicas já estabelecidas".
Em 12 de setembro, o eBay - maior site de leilões da internet - anunciou que estava comprando o Skype por US$ 2,6 bilhões, mais um adicional de US$ 1,5 bilhão se o Skype alcançar certas metas de desempenho nos próximos anos.
"Isso parece um volume de dinheiro muito grande por uma companhia que tem receitas de apenas US$ 60 milhões e ainda não é lucrativa. Mesmo assim, o eBay não foi a única companhia interessada no Skype. Comenta-se no mercado que Microsoft, Yahoo, News Corporation e Google também pensaram em comprar a companhia", revela a "The Economist".
Sejam quais forem os méritos do negócio - diz a reportagem - a agitação provocada pelo Skype nas últimas semanas reforçou a importância da voz sobre IP, e a enorme ameaça que ela representa para as companhias telefônicas tradicionais e já estabelecidas.
"Isso porque a ascensão do Skype e outros serviços de voz sobre IP significa nada menos do que a morte do negócio da telefonia tradicional, estabelecido há mais de um século. O Skype é apenas a manifestação mais visível de uma mudança dramática no setor de telecomunicações, com as chamadas de voz se transformando em mais um serviço de dados prestado via conexões de alta velocidade da internet".
O Skype já tem mais de 54 milhões de usuários, mas outras empresas do tipo também já conseguiram milhões de clientes.
"A capacidade de realização de ligações telefônicas grátis, ou quase de graça, por conexões rápidas da internet fatalmente prejudica o modelo existente de formação de preços para a telefonia", diz a "The Economist".
- Acreditamos que as pessoas não deverão pagar por ligações telefônicas no futuro, assim como elas não pagam para enviar um e-mail - afirmou Niklas Zennström, um dos fundadores do Skype, à revista britânica.
"Isso significa não só o fim da formação de preços com base na distância e no tempo de chamada - também significa a morte lenta do mercado de telefonia de voz, que movimenta US$ 1 trilhão, uma vez que o preço marginal da realização de chamadas telefônicas vai inexoravelmente cair", diz "The Economist" .
Segundo a reportagem, o Skype e outros serviços de voz sobre IP estão provocando uma queda nos preços, maior poder de escolha e flexibilidade. "O usuário pode associar um número de telefone tradicional de São Francisco, um de Nova York e outro de Londres ao seu computador ou telefone voz sobre IP, e então ser alcançado via ligação local por qualquer pessoa que estiver nessas três cidades. Além disso, seu telefone (ou computador) vai tocar em qualquer lugar do mundo em que você estiver, assim que estiver plugado na internet. Desse modo, você pode levar consigo seu número de Madri para Mumbai, ou seu número de São Francisco para Xangai".
"The Economist" lembra que, como sempre acontece com uma tecnologia de ruptura, "as companhias estabelecidas que ela ameaça estão divididas entre as que estão tentando bloquear a nova tecnologia, na esperança de que ela simplesmente vá embora, e aquelas que estão se movimentando para abraçá-la, muito embora isso vá minar seus negócios existentes".
A reportagem avalia que, como a voz sobre IP vai fazer as receitas com chamadas de voz definharem, as operadoras mais vulneráveis são aquelas de dependem mais dessas receitas: "Isso significa, em particular, as operadoras de telefonia móvel, que vêm lutando há anos para fazer com que seus assinantes gastem mais com serviços de dados, mas que ainda dependem muito das receitas com chamadas de voz. E pior: as próprias redes de "terceira geração" (3G), que deveriam proporcionar crescimento futuro para essas empresas, poderão prejudicá-las, já que essas redes também tornam a voz sobre IP possível".
Menos vulneráveis estariam as operadoras de telefonia fixa, que hoje estão construindo novas redes baseadas na tecnologia da internet, "o que permitirá a essas empresas se beneficiarem da maior eficiência e custo menor da voz sobre IP em comparação à telefonia tradicional". A reportagem afirma que essas operadoras estão adotando uma abordagem do tipo "se você não pode vencê-los, junte-se a eles", e entrando no negócio de voz sobre IP. Suas receitas com chamadas tradicionais de voz vão evaporar lentamente, mas elas então estarão bem posicionadas para oferecer serviços adicionais à base de tarifas em suas novas redes.
A reportagem termina afirmando que a dúvida no momento não é mais se a voz sobre IP vai ou não varrer a telefonia tradicional, e sim a rapidez com que isso vai acontecer.
"Pessoas do setor já estão falando no dia - que talvez esteja a uma distância de apenas cinco anos - em que a telefonia será um serviço grátis oferecido como parte de um pacote de serviços, como um incentivo à compra de outras coisas, como acesso de banda larga à internet ou serviços de TV por assinatura. Resumindo, a voz sobre IP está remodelando completamente o mercado das telecomunicações. E é por isso que muitas pessoas vêm fazendo tanto alarde com o Skype - uma companhia pequena, sim, mas que simboliza uma enorme mudança em uma indústria que movimenta US$ 1 trilhão".
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